Teoria da Hélice Tríplice: algumas considerações teóricas.
Este resumo trás algumas considerações teóricas a partir dos trabalhos realizados por Márcio Moutinho Abdalla, Marcelo Vinicius Dória Calvosa e Luciene Gouveia Batista (Hélice Tríplice no Brasil: Um ensaio teórico acerca dos benefícios da entrada da universidade nas parcerias estatais), também do trabalho de Renato Dagnino (A Relação Universidade-Empresa no Brasil e o Argumento da Hélice Tríplice).
Existe certa dificuldade em encontrar uma tradição bibliográfica sobre o tema por autores brasileiros e dentro de alguns trabalhos encontrados disponíveis, consideramos as definições nestes apresentadas, satisfatórias aos nossos objetivos. As análises nestes casos, se debruçam em autores que iniciaram esta teoria, a exemplo de Etzkowitz.
O surgimento desta teoria pode estar associado a transição do paradigma da sociedade industrial para o da sociedade do conhecimento, onde o conhecimento e sua gestão entram nas discussões para o desenvolvimento das nações. A necessidade crescente de conhecimento científico para o alcance do progresso tecnológico e o encurtamento do ciclo das inovações introduziu um novo ator junto ao Governo e Inciativa Privada na condução ao crescimento e desenvolvimento do país: a universidade.
A abordagem da Hélice Tríplice (HT) caracteriza a dinâmica da inovação dentro de um contexto de evolução, onde as relações se estabelecem entre três esferas institucionais, envolvendo três atores distintos: a universidade, a iniciativa privada e o governo, configurando três pás distintas de uma mesma hélice.
Para FUGINO; STAL; PLONSKY, 1999, o estímulo à realização de projetos tecnológicos do Estado, incluindo a universidade ao segmento empresarial, está centrado no argumento de que essas interações favorecem o acesso aos conhecimentos e habilidades tecnológicas dos parceiros, além de minimizarem os riscos financeiros inerentes às atividades de pesquisa e desenvolvimento, ao mesmo tempo em que possibilitam novo aporte de recursos às atividades de pesquisa.
Historicamente esta união parece ter surgido de uma incapacidade do Estado de forma isolada em gerar desenvolvimento sustentável, rápido, efetivo e de qualidade, o que demandou a entrada de outros atores no processo de desenvolvimento sócio-econômico. Observou-se então a entrada de um segundo ator, a iniciativa privada através das Parcerias Público-Privadas (PPPs) e posteriormente a entrada da Universidade como fornecedora de pesquisas e modelos de desenvolvimento. Deste modo para alguns autores, esta abordagem é um modelo evolutivo do conceito das PPPs. Enquanto o modelo das PPPs propõe a realização de atividades conjuntas entre o poder público e a iniciativa privada em favor da sociedade, a HT amplia o horizonte de atuação inserindo a universidade, que acrescenta aos projetos o incremento do conhecimento metodologicamente construído e da inovação.
Para DAGNINO, 2003, apresenta-nos uma abordagem diferente dessa evolução histórica entre os três atores, dando uma visão mais global da composição desta teoria. O autor aponta o desenvolvimento do argumento da Hélice Tríplice no contexto internacional, parece estar associado duas correntes de análise há pouco originadas nos países desenvolvidos:
- A primeira corrente seria a Segunda Revolução Acadêmica que sugere um novo contrato social entre universidade e sociedade onde caberia a primeira a função de participar mais ativamente no processo de desenvolvimento econômico. Essa nova função que transcende seu papel inicial de ensino e pesquisa promove um entrelaçamento entre o âmbito da pesquisa e os formuladores de políticas públicas, sinalizando suas diretrizes e gerando por um lado, um processo de cooptação da comunidade de pesquisa, e de outro, a possibilidade de melhor direcionar a aplicabilidade dos resultados alcançados.
- A segunda corrente trataria da importância das relações com o entorno na competitividade das empresas. Essa corrente deixa de lado a visão do empresário empreendedor como agente principal e deflagrador do processo de inovação e assume que as características do ambiente determinariam em que medida a empresa seria capaz de participar ativamente do processo inovativo e implementar, no seu próprio âmbito e a partir de suas características peculiares o processo de difusão das inovações.
A HT propicia a compreensão analítica dos processos de inovação no seu sentido mais amplo nos países em desenvolvimento (ETZKOWITZ e MELLO, 2004). Neste cenário torna-se imprescindível a participação de instituições de pesquisa, incluindo as universidades no desenvolvimento de competências para os setores produtivos dos serviços, assim como a atuação do governo na coordenação e estímulo aos processos de geração e disseminação do conhecimento, no aporte de recursos e na mobilização da sociedade e dos agentes econômicos, por meio da criação e suporte de programas, projeto e instituições, promotoras do desenvolvimento de ambientes favoráveis à inovação os quais poderão no futuro transformar-se em sistemas regionais ou nacionais de inovação.
Focando mais nas relações entre universidade e empresa, quais razões levariam a esta parceria? DAGNINO, 2003 apud Webster & Etzkowits (1991), aponta que por parte das empresas, estes seriam os principais motivadores:
- Custo crescente da pesquisa associada ao desenvolvimento de produtos e serviços necessários para assegurar posições vantajosas num mercado cada vez mais competitivo;
- A necessidade de compartilhar o custo e os riscos das pesquisas pré-competitivas com outras instituições que dispõem de suporte financeiro governamental;
- Elevado ritmo de introdução de inovações no setor produtivo e a redução do intervalo de tempo que decorre entre a obtenção dos primeiros resultados de pesquisa e sua aplicação;
- Decréscimo de recursos governamentais para pesquisa em setores antes profusamente fomentados, como os relacionados ao complexo industrial-militar.
Do lado das universidades, as principais razões seriam:
- Um crescente dificuldade em obtenção de recursos públicos par a pesquisa universitária e a expectativa de que estes possam ser proporcionados pelo setor privado em função do maior potencial de aplicação de seus resultados na produção;
- Interesse da comunidade acadêmica em legitimar seu trabalho junto à sociedade que é, em grande medida, a responsável pela manutenção das instituições universitárias.
Observa-se a partir do que foi exposto, selecionado de alguns estudiosos sobre o assunto, que esta tríplice relação surge a partir de uma nova dinâmica social, onde os antigos papeis de cada ator – governo, iniciativa privada e universidade – são renovados diante de novas demandas apresentadas e não supridas apenas pelo governo. Consideramos que o tema ainda carece de um aprofundamento na sua fundamentação teórica e que não há numeroso material disponível para consulta, mas que estas informações iniciais são suficientes para um inicial entendimento sobre Hélice Tríplice.
Especialmente falando do papel da universidade nesse contexto, entendemos que enriquece o modelo anterior composto apenas pelos esforços do governo e da iniciativa privada. Algumas das contribuições mais importantes das universidades talvez se mostrem nas pesquisas realizadas em laboratórios acadêmicos, que em geral possuem custos menores do que os estudos efetuados por empresas privadas, já que não estão implícitos em seus objetivos, o lucro financeiro e sim o ganho social; na grande ênfase cultural da extensão universitária de trazer benefícios à sociedade; na grande concentração de recursos humanos especializados e capacitados para a leitura imprecisa do ambiente externo; nos modelos gerenciais flexíveis e adaptados à realidade da região circunvizinha da universidade; e nos instrumentos internos com o objetivo de auxiliar no ajuste das carências tecnológicas à realidade social e econômica de empresas nascentes, pequenas e médias, como: incubadoras tecnológicas, empresas juniores e agências de inovação. A junção deste ator à iniciativa privada se torna fundamental para responder aos anseios sociais e às diretrizes políticas quanto a Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação.
Bibliografia:
ABDALLA, M.M; CALVOSA, M.V.D.; BATISTA, L.G. Hélice Tríplice no Brasil: um ensaio teórico acerca dos benefícios da entrada da universidade nas parcerias estatais. 2009. Disponível em: www.fsma.edu.br/cadernos/Artigos/Cadernos_3_artigo_3.pdf . Acesso em 21/02/2013.DAGNINO, R. A relação universidade-empresa no Brasil e o argumento da hélice tripla. Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Inovação, v.2, n.2, p.267-307, julho/dez, 2003.
ETZKOWITZ, H.; MELLO J.M.C. The Rise of a Triple Helix Culture - Innovation in Brazilian Economic and Social Development, International Journal of Technology Management and Sustainable Development, 2 (3) 159- 171, 2004.
FUJINO, A.; STAL, E.; PLONSKI, G.A. A proteção do conhecimento na universidade. Revista de Administração. São Paulo, v.34, n.4, p.46-55, out.dez., 1999.
MELLO, J.M.C. A Abordagem Hélice Tríplice e o Desenvolvimento Regional. II Seminário Internacional Empreendedorismo, Pequenas e Médias Empresas e Desenvolvimento Local. Rio de Janeiro, RJ, Brasil 02 a 04 de agosto de 2004.







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